quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Meio dia na cidade que é a nova Belém, e o pajem, recolhendo as taças, pergunta se faltou alguém. Haverá mago, diz o rei e eu lhe respondo, se houver, trago. Mas o mago não vem. A noite é fria sobre a cidade, e a cidade espanta, a cidade acalca, a cidade mansa mostra por fim sua alma e todos os olhos cansam. Então a cidade acalma. Há pouco, de tanto pra ver!


Caminhei por debaixo do viaduto 
com a calma de um monge 
e a tristeza de um puto 
verdadeiro. 
Pudera eu fosse o primeiro, 
beirando a espera de um trem.

domingo, 28 de setembro de 2014

farão temporada em mim todas as moças
e marcarão no muro rígido de meu leito
todas as forças que aplicaram constantemente
sobre a insônia do meu peito

sábado, 30 de agosto de 2014

o corpo de cristo, amigo
espalhou-se sobre todas as flores
fosse negra a cadência das cores
e nós não teríamos pão

terça-feira, 19 de agosto de 2014

rejeito seu seio amargo,
sua voz de infanta,
seu corpo fino
e frágil demais

rejeito seu mar aberto
seu peito largo
e a ilusão
do teu cais.
Balbucio teu nome duas vezes, sentada no vão do sofá, na mais calada noite.

São quatro horas no quarto,
amanhece na Espanha
e o silêncio pesado do fardo
é o deus que me acompanha.

sábado, 16 de agosto de 2014

tinha os olhos no chão
e ainda a memória de outros
mas queríamos ser poupados
o muro falava por nós.

devia tê-la marcado

me faz falta saber
a hora exata
em que perdemos a voz.
éramos pequenos
empurrando de um lado
e puxando do outro

o peso da pedra pendente

crianças
com muitas mensuras.
seus olhos bastavam
fariam cair um inimigo
ou um animal

eu é que não escapei

e por isso corri para a praça,
naquele domingo,
às onze horas,
a declamar pela rua
os meus poeminhas tristes.

o senhor que perdoe o meu desalinho,
estava com febre
e só anseava a brisa pequena
e um raio de luz.
inteiramente ficamos
porque apesar do ataque
e da defesa
não sermos ouvidos lá dentro
nos puxava a cabeça.
soturna, tateio teu corpo
meus dedos são uma legião
percorrendo o deserto

areia que forma
o teu rosto

que graças a deus
não me é familiar.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

1.

a tarde fria sem sol que acenda
a noite espessa despejada e feroz

a ideia do caos, ou ainda pior,
a espera do cais
a lembrança da voz
e a paciência débil dos casais

como me doem, deus meu, como me rasgam
em três partes ou mais

sem ranço, se rasga o nome do filho,
liberto da boca do sapo
rendem o espírito cúbico
que não se exprime no ato

suspendem o nome do pai
e raízes outras que fingiram ser veias espalhadas
pelo finito do corpo

2.

a esfera possível do corpo passível é morte
e está à espera do corte

o corpo,
é torpe,
ainda à espera da sorte

e faz seus anjinhos no lodo,
a espera de um norte
que possa livrar-lhe da ideia
de que ainda há mais

3.

que foi feita da cria que a mãe planejou
em poemas dóceis?

e que a tia banhou religiosamente,
em liturgia diária,
com resíduos fósseis -
que imaginei sendo, sempre,
como o fantasma-memória
de antepassados meus

4.

a tua ausência, queima estes sete espaços da minha cabeça
a tua ausência, transborda pelas janelas que imitam cercas
a tua ausência, banaliza o meu momento em que a fé se dispersa
a tua ausência, é a coisa mais doída de toda existência

a tua ausência... é negra, é negra,
é negra, é negra, é negra,
é negra, é negra

é negra.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

grande ao descartar-me como pedra
que faz doer o pé no sapato
austera no gesto de ignorar-me
encerrando a possibilidade de qualquer ato

só fica aonde cai bem, senhora,
só fica aonde for banal
e de superfície, como carne
toque e tecidos quentes
no bem-estar matinal.

domingo, 10 de agosto de 2014

sempre me pareceu absurdo que o amor possa doer
já que temos cá todos os braços para ver o rio correr

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A ânsia humana de encarar o barro 
como coisa que abriga, 
aquece, mas também afunda e escurece 
e nos leva de volta à barriga.

terça-feira, 15 de julho de 2014

- Quando jovem, mas já maduro e prestes a cair na selvageria do vale, entorpeci-me com tudo que foi encontrado. Fiz um bonde de imoralidades. Fora eu o próprio bonde e dancei nu sobre ele!
Tantos são os mitos, meu pai, 
tantos são os cristos 
que ouvi passar e bramir. 

Tantos são os mártires 
assim, tais como eu, 
um cético descabido, 
chamando um pai que não é meu.
eu continuo aqui, terna
amando-te como a primeira
vez que sai da caverna

domingo, 15 de junho de 2014


as vezes me calo
e quero
a sorte
de proclamar-me sem norte
e entender que não espero

aquilo que tanto esmero
não cabe à minha morte
o deus é menos austero
não tem as amarras tão fortes

sou livre, oras
sou livre
e que pânico é viver sem grilhões nos pensamentos
que náusea é saber-se sem ajuizamento moral
visto que não é preciso ser vil, alegre, altivo
e que há pouco que procurar na identidade carnal

sou livre
e na possibilidade de encontrar a tudo,
falta a mim me encontrar
falta saber-me nu, sem escudo
falta olhar pro horizonte para ver
que tudo a minha volta naufragará em outro mar
que não o solo firme do homem humano
que corre, inclusive, muy lento.

vejo meu corpo diante do morro
pequeno, se lembramos os alpes,
os andes e o kilimanjaro,
meu corpo pequeno diante do morro que não é grande
meu corpo ainda menor, pequeno já entre os corpos
de outros montes de passantes.

da minha liberdade na terra, meu bem,
por fim, quero uma caixa
coisa simples, sem requintes
pode ser de madeira rústica, assim, cheia de farpas
ou pode ser incolor, barata e de estrutura plástica
enfim, só me basta uma caixa
para encontrar em mim mesma aquilo que no mundo se acha.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Que coisa, imensa, deus pai,
como é que as linhas se cruzam?

No mesmo planeta
Inventam amor e lançam astronautas
E ainda há quem retorne ao ventre
E reerga a Cruz de Malta

O olho pro infinito
Que nos move e nos falta.

-

Vento Sul
Leste, Oeste
prefiro inferir sobre a morte 
ao proclamar-me sem norte 
que ceder à vulga peste

Tempo nu
que me destes
aceitarei duro e claustro
o pano que meu corpo veste.

-

O homem senta, encara,
esconde suas mãos no bolso,
colando ao torso a cara
nunca se deixa afagar


Passam-se as ruas
uma a uma
e dentro - do ônibus,
da alma, deste momento - 
eu escrevo,
um moço ora,
e uma mulher chora para confessar seu pecado.

Vê se não somos iguais...

No banco, andar de baixo,
uma senhora - é de flor o vestido - 
assiste o mundo correndo
por entre estes muros de vidro:
meias mãos, prédios e braços.

Sua visão, por ironia da tépida vida,
é parcialmente vedada 
por um pequeno adesivo 
que indica que o seu assento
serve a um certo tipo.

como cadeiras marcadas 
 quem tem grana aconchega o bumbum
e quem não tem,
assiste da escada.

ou não
ou chão
ou nada

...

o ônibus pára -
é matéria em movimento - 
o homem de atrito e ranhuras
ganha o seu consentimento.
a casa torta
mapa:
legado da vela
quando finda

e
nós dois
encerados
ainda

no que se fez
com o calor da chama


entrarei pela porta do quarto se desejar assim
- os olhos fixos nos dedos da moça a deixava
cada vez mais desconfortável, notava-se pelo olhar esquivo
- o que deveria dizer? ora,

entre pela janela,
pelo fio do telefone,
entre pelas frestas da persiana mofada,
entre, entre, entre como quiser,
mas não fale!

sua voz desperta os palmares,
abre a caixa de pandora.
falta-me o ar, gela-me o corpo,
faz-me querer explodir,
delegar a memória.

domingo, 25 de maio de 2014

Não sei o que fazer com esse amor
de dois gumes
que acende, queima e vivifica,
como nos explica a bíblia.
amor cristão que aprendemos
por costume.

terça-feira, 13 de maio de 2014

quando eu fui rei
dei a ti o encargo de sol
e vesti sua face em todas as flâmulas
triste lâmina a minha
reluzia e pensava farol

ceguei
e pensei ser um rei



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Ao coração ancestral daqueles que desbravaram montanhas de azul, deixo meu carinho e confidência, sei como é amar o volume das água pela pura dissidência.