quarta-feira, 27 de novembro de 2013


Quero integrar-me a parede, contínua 
superfície cíclica escamada de vértices. 

Quero ocupar, com o meu corpo, todos as faces do quarto: eu mensurável, cúbica, rígida dimensão.

Quero saber-me chão 
em todos os meus seis lados.

...

domingo, 24 de novembro de 2013

Ouve amigo:

é a alta frequência rasgando o silêncio morno da chuva,
bilhões de sinas velozes sulcando estes cânions na urbe,
é o grito do gato
que não te deixas dormir, porque te assusta
por imitar o choro de uma criança...
Vê? Como somos frágeis...

Agora a pouco pensei me bastar:
forte figura,
para perceber que minha sanidade
é exatamente o momento em que,
ludibriada, esqueço de minha loucura.



Na ânsia de te sentir – minha amante, eu-completo, minha esquiva solidão – pisei cacos onde era concreto e então periguei flutuar: fundo fosso. Parti – sem piedade, presa à minha insanidade -  todos os olhos de vidro: os olhos amigos, os desconhecidos, o teu e o meu. Por isso te peço perdão. Faltou entender que assim como a mim e minha plástica percepção, não é fácil viver por aí com o oco estampado na cara, ser propaganda ambulante do palpável oco rasura, o oco figura estampada em capas de discos: vão entre o véu e a verdade. O oco insano do olho anticristão.

Seus olhos de vidro
nos meus olhos tripartidos.
Seus olhos no dele: espelho.
Teu corpo no meu: infrutífero além: expansão em vermelho.

Entendo que é tempo de homens de aço, de parcos abraços e duríssimas carências. É tempo de turbulências: o efervescente start! É tempo de porta-bandeira sem pátria real, sem o torpe ideal do poder-estandarte.

Apogeu: o corpo distante do ciclo de deus.


Mas se penso os seus olhos nos meus todos os montes se erguem e me vem à lembrança esta rara esperança de voltar ao seio, ao cerne, à sombra, enfim, ao céu: eu-criança.

Seiva profícua que sai de tua língua
Te bebo sem sede

Lodo original do meu ser ante natal
Luz que, distante, míngua
Para saltar nesta noite
A enganosa lembrança de tua boca infinda.


Desci, com os olhos, as corredeiras de suas veias geográficas. Desejei, em ti, um mapa: mas era ímpeto humano de transgredir, deslocar, conhecer, deglutir qualquer carne que não minha. Quis curar com a rigidez de minha boca a suas mãos frágeis, sua pele fina, o berçário-vulcão que te tentava romper.

A linha dura do teu nariz reto:
Abstrato sonho dos neoconcretos
O furo futuro no muro
A razão para o não-objeto

E palavras outras que jamais poderia dizer: terremoto, ânsia, orquestra, nimbus estampadas no outono, o vazio entre o ser e o gesto.

Sonhei paisagens
Criei memórias
Fiz lar onde havia deserto
Surgiram-me penas, tecidos de história
Mas quando me abri em cortinas,
nada por perto:

Um homem perdido no mar.


*

Tempo, desassossego meu
Inevitável norte,
Gradualmente escureço
Pois passível é minha carne
À minha própria desordem
Dissolvo quieta em contato
Toque teu: jorro espesso.




domingo, 3 de novembro de 2013

deixar as raízes do corpo
adiando o porto da cama

transcender sentir-se no outro:
duro prazer de quem ama.

sábado, 7 de setembro de 2013

Não desejar:
Depois do jantar, cercavam-se, muito ardentes, com solene lentidão. A mulher - uma aparição sem consistência - consolava seus irmãos. Tão formosa ainda...

O colar da mocinha se quebra
Como quebram os laços familiares
E as louças portuguesas
Como se encerram os dias
E se escassa a natureza

Um olhar enfastiado por todas as sombras da frieza. Fragmentos de existência restavam ao canto do sorriso brando de Zaud.

Zaud, seu peito é campo, planície de asperezas, e é por isso que sobe-me o pranto:
Saudades de sua agudeza!

Três ou quatro vezes pude contemplar-me:
Noite feroz.
Difícil foi afastar-me do abismo de tua voz.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A verdade é que estamos todos perdidos.
Não importa se, unidos, fazemos a força agora.


A sensação de ingenuidade deflagra-nos pela manhã.
Não adianta olhar, orgulhoso, as marcas da luta vã.


Embora seja o planeta embebido em visões de guerra,
quem lutará enternecido no distante reduto da Terra?


É tempo de morte física e intelectual.
Não saberíamos sequer o que é norte,
não fosse o mapa natal.
O teu peito é uma estaca
Onde amolam-se facas
E os versos de amor são tecidos.
Não te preocupes, homem, moço,
Outro trem passará em seguida.
Choramingas assim, um instante,
pela passagem de tua Vida?

É preciso voltar à infância,
dar as vestes de criança
para a alma travestida.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O faca, o grito, o açoite
O peso bruto da água
a escorrer desta noite
sincrética: condensação.

Fico sozinha no meu sossego
não quero mais nada, repito
Fico pétrea, rouca, abastada
Sentada em meu próprio mito

O mito, o mímico, eu mico

Aos pulos atacando os leões

Contraversão profética ou
Tradução poética das rixas
E sensações das frestas
Se abrem certeiras na testa
Se rompemos ideais convenções

Eu sítio, euspaço, eu rítmo
A deslocar meu compasso

Sob as nuvens, entre as águas
Sobre a terra: rio largo
Para a vida que insiste e incinera
E ainda é mar: fluidez, longos braços.

A vida quebra, a roda viva, a vida encerra
Longa e maçante como as releituras de Milan Kundera
Minuscula, cíclica e inusitada ainda
como os ecos de todos os mundos que Satie uniu em laço
Para traduzir a dor finda.

A vinda, a vida, ainda
Perspectiva como um grand Picasso
Não concluída como a bela flor.

Sofro disso tudo e ainda há o amor
Que retoma esse raciocínio fúnebre
Lançando-me ao mesmo embaraço
Onde crio e atiro a casca viva que sou
E quase me castro, ser nau à deriva,
sem lastro, em um mar de torpor.
Sambo imaginário nos montes de Bariloche
e não acho desleixo social, ou transtorno
sentimental, transparecer meu deboche.