domingo, 24 de novembro de 2013

Na ânsia de te sentir – minha amante, eu-completo, minha esquiva solidão – pisei cacos onde era concreto e então periguei flutuar: fundo fosso. Parti – sem piedade, presa à minha insanidade -  todos os olhos de vidro: os olhos amigos, os desconhecidos, o teu e o meu. Por isso te peço perdão. Faltou entender que assim como a mim e minha plástica percepção, não é fácil viver por aí com o oco estampado na cara, ser propaganda ambulante do palpável oco rasura, o oco figura estampada em capas de discos: vão entre o véu e a verdade. O oco insano do olho anticristão.

Seus olhos de vidro
nos meus olhos tripartidos.
Seus olhos no dele: espelho.
Teu corpo no meu: infrutífero além: expansão em vermelho.

Entendo que é tempo de homens de aço, de parcos abraços e duríssimas carências. É tempo de turbulências: o efervescente start! É tempo de porta-bandeira sem pátria real, sem o torpe ideal do poder-estandarte.

Apogeu: o corpo distante do ciclo de deus.


Mas se penso os seus olhos nos meus todos os montes se erguem e me vem à lembrança esta rara esperança de voltar ao seio, ao cerne, à sombra, enfim, ao céu: eu-criança.

Seiva profícua que sai de tua língua
Te bebo sem sede

Lodo original do meu ser ante natal
Luz que, distante, míngua
Para saltar nesta noite
A enganosa lembrança de tua boca infinda.


Desci, com os olhos, as corredeiras de suas veias geográficas. Desejei, em ti, um mapa: mas era ímpeto humano de transgredir, deslocar, conhecer, deglutir qualquer carne que não minha. Quis curar com a rigidez de minha boca a suas mãos frágeis, sua pele fina, o berçário-vulcão que te tentava romper.

A linha dura do teu nariz reto:
Abstrato sonho dos neoconcretos
O furo futuro no muro
A razão para o não-objeto

E palavras outras que jamais poderia dizer: terremoto, ânsia, orquestra, nimbus estampadas no outono, o vazio entre o ser e o gesto.

Sonhei paisagens
Criei memórias
Fiz lar onde havia deserto
Surgiram-me penas, tecidos de história
Mas quando me abri em cortinas,
nada por perto:

Um homem perdido no mar.


*

Tempo, desassossego meu
Inevitável norte,
Gradualmente escureço
Pois passível é minha carne
À minha própria desordem
Dissolvo quieta em contato
Toque teu: jorro espesso.




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