sábado, 30 de agosto de 2014

o corpo de cristo, amigo
espalhou-se sobre todas as flores
fosse negra a cadência das cores
e nós não teríamos pão

terça-feira, 19 de agosto de 2014

rejeito seu seio amargo,
sua voz de infanta,
seu corpo fino
e frágil demais

rejeito seu mar aberto
seu peito largo
e a ilusão
do teu cais.
Balbucio teu nome duas vezes, sentada no vão do sofá, na mais calada noite.

São quatro horas no quarto,
amanhece na Espanha
e o silêncio pesado do fardo
é o deus que me acompanha.

sábado, 16 de agosto de 2014

tinha os olhos no chão
e ainda a memória de outros
mas queríamos ser poupados
o muro falava por nós.

devia tê-la marcado

me faz falta saber
a hora exata
em que perdemos a voz.
éramos pequenos
empurrando de um lado
e puxando do outro

o peso da pedra pendente

crianças
com muitas mensuras.
seus olhos bastavam
fariam cair um inimigo
ou um animal

eu é que não escapei

e por isso corri para a praça,
naquele domingo,
às onze horas,
a declamar pela rua
os meus poeminhas tristes.

o senhor que perdoe o meu desalinho,
estava com febre
e só anseava a brisa pequena
e um raio de luz.
inteiramente ficamos
porque apesar do ataque
e da defesa
não sermos ouvidos lá dentro
nos puxava a cabeça.
soturna, tateio teu corpo
meus dedos são uma legião
percorrendo o deserto

areia que forma
o teu rosto

que graças a deus
não me é familiar.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

1.

a tarde fria sem sol que acenda
a noite espessa despejada e feroz

a ideia do caos, ou ainda pior,
a espera do cais
a lembrança da voz
e a paciência débil dos casais

como me doem, deus meu, como me rasgam
em três partes ou mais

sem ranço, se rasga o nome do filho,
liberto da boca do sapo
rendem o espírito cúbico
que não se exprime no ato

suspendem o nome do pai
e raízes outras que fingiram ser veias espalhadas
pelo finito do corpo

2.

a esfera possível do corpo passível é morte
e está à espera do corte

o corpo,
é torpe,
ainda à espera da sorte

e faz seus anjinhos no lodo,
a espera de um norte
que possa livrar-lhe da ideia
de que ainda há mais

3.

que foi feita da cria que a mãe planejou
em poemas dóceis?

e que a tia banhou religiosamente,
em liturgia diária,
com resíduos fósseis -
que imaginei sendo, sempre,
como o fantasma-memória
de antepassados meus

4.

a tua ausência, queima estes sete espaços da minha cabeça
a tua ausência, transborda pelas janelas que imitam cercas
a tua ausência, banaliza o meu momento em que a fé se dispersa
a tua ausência, é a coisa mais doída de toda existência

a tua ausência... é negra, é negra,
é negra, é negra, é negra,
é negra, é negra

é negra.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

grande ao descartar-me como pedra
que faz doer o pé no sapato
austera no gesto de ignorar-me
encerrando a possibilidade de qualquer ato

só fica aonde cai bem, senhora,
só fica aonde for banal
e de superfície, como carne
toque e tecidos quentes
no bem-estar matinal.

domingo, 10 de agosto de 2014

sempre me pareceu absurdo que o amor possa doer
já que temos cá todos os braços para ver o rio correr