1.
a tarde fria sem sol que acenda
a noite espessa despejada e feroz
a ideia do caos, ou ainda pior,
a espera do cais
a lembrança da voz
e a paciência débil dos casais
como me doem, deus meu, como me rasgam
em três partes ou mais
sem ranço, se rasga o nome do filho,
liberto da boca do sapo
rendem o espírito cúbico
que não se exprime no ato
suspendem o nome do pai
e raízes outras que fingiram ser veias espalhadas
pelo finito do corpo
2.
a esfera possível do corpo passível é morte
e está à espera do corte
o corpo,
é torpe,
ainda à espera da sorte
e faz seus anjinhos no lodo,
a espera de um norte
que possa livrar-lhe da ideia
de que ainda há mais
3.
que foi feita da cria que a mãe planejou
em poemas dóceis?
e que a tia banhou religiosamente,
em liturgia diária,
com resíduos fósseis -
que imaginei sendo, sempre,
como o fantasma-memória
de antepassados meus
4.
a tua ausência, queima estes sete espaços da minha cabeça
a tua ausência, transborda pelas janelas que imitam cercas
a tua ausência, banaliza o meu momento em que a fé se dispersa
a tua ausência, é a coisa mais doída de toda existência
a tua ausência... é negra, é negra,
é negra, é negra, é negra,
é negra, é negra
é negra.
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