quarta-feira, 13 de agosto de 2014

1.

a tarde fria sem sol que acenda
a noite espessa despejada e feroz

a ideia do caos, ou ainda pior,
a espera do cais
a lembrança da voz
e a paciência débil dos casais

como me doem, deus meu, como me rasgam
em três partes ou mais

sem ranço, se rasga o nome do filho,
liberto da boca do sapo
rendem o espírito cúbico
que não se exprime no ato

suspendem o nome do pai
e raízes outras que fingiram ser veias espalhadas
pelo finito do corpo

2.

a esfera possível do corpo passível é morte
e está à espera do corte

o corpo,
é torpe,
ainda à espera da sorte

e faz seus anjinhos no lodo,
a espera de um norte
que possa livrar-lhe da ideia
de que ainda há mais

3.

que foi feita da cria que a mãe planejou
em poemas dóceis?

e que a tia banhou religiosamente,
em liturgia diária,
com resíduos fósseis -
que imaginei sendo, sempre,
como o fantasma-memória
de antepassados meus

4.

a tua ausência, queima estes sete espaços da minha cabeça
a tua ausência, transborda pelas janelas que imitam cercas
a tua ausência, banaliza o meu momento em que a fé se dispersa
a tua ausência, é a coisa mais doída de toda existência

a tua ausência... é negra, é negra,
é negra, é negra, é negra,
é negra, é negra

é negra.

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